Duas das equipas pelas quais nutro uma valente estima de longa data estão em curva descendente, e ambas notoriamente dependentes de apenas um elemento, símbolo dos clubes. São eles Van Persie e Dwight Howard de Arsenal e Orlando Magic.
Salvaguardando as diferenças, desportos distintos e bla bla bla, as semelhanças são por demais evidentes e preocupam-me bastante visto que pode muito bem culminar no término (definitivo) de um ciclo a ser lembrado com grande nostalgia.
Falando verdade, o Arsenal já nem vem lutando por títulos de alguns anos a esta parte, embora, miraculosamente, consiga sempre criar uma falsa ilusão, por mais efémera que seja, de que a equipa segue no rumo certo. Esta travessia do deserto não pode mais ser atenuada pelo cliché da juventude da equipa. São necessários jogadores de qualidade indiscutível, sejam putos ou veteranos, brancos ou pretos, chineses ou marroquinos, e não eternas promessas que são capazes de atravessar jogos inteiros sem dar um ar da sua graça, como Walcott. Mas o problema é bem maior. A enormidade de jogadores relativamente bem cotados que chegaram ao clube cujo rendimento é confrangedor diz tudo: o que Chamakh mostrou é digno de um ponta de lança da liga orangina, Benayoun, já preterido de Liverpool ou Chelsea foi comprado numa loja de conveniência, o Rosicky e o Arshavin que mereceram um grande investimento parecem já não estar entre nós, e bem, por uma questão de educação não vou caricaturar Squillaci. E não é tudo! Um novo departamento médico também daria jeito, não vou enumerar os jogadores lesionados porque não ficaria bonito encher linhas com nomes de jogadores.
Tudo isto para dizer que respeito a decisão do Van Persie caso ele decida não renovar, pois para manter jogadores deste calibre há que existir uma estrutura feita para ganhar que não existe, uma vez que a sua ambição e o seu desempenho estão claramente acima dos do clube, tornando legitima esta opção, não podendo ser vista como um "abandonar do barco".
A meu ver é inexplicável a performance actual da equipa. Se há alguma coisa que Arsene Wenger tem, é experiência, e se há alguma coisa que ao Arsenal não falta, é dinheiro.
Aproveitando que estou com a mão na massa, tenho uma pena tremenda que a constelação dos primórdios do século não tenha ganho aquela final da Champions e que nem Henry nem Bergkamp tenham sido coroados com o título de melhor jogador do mundo. Talvez com esses impulsos teríamos hoje um outro Arsenal!
Por sua vez, a trajectória de Orlando tem sido mais suave. Num universo diferente, na NBA só se luta por uma competição, não sendo choque nenhum que a equipa nunca tenha levado os anéis para casa.
Há 3 anos, quando a equipa chegou à final das finais, Howard já era preponderante, embora não o que é hoje. Hoje em dia pode-se dizer ser unânime que Howard é o melhor poste da liga, com uma média de ressaltos a rondar os 20 e mais eficaz a nível de pontuação, e tem tido à sua volta jogadores intermitentes mas ainda assim dotados que continuam a permitir que Orlando se apure para os playoffs sem grandes percalços. Pode-se dizer que a equipa desta época prima pela juventude à excepção de Turkoglu que emana sabedoria e insiste em aparecer nos momentos decisivos quando Orlando mais precisa. A troca de Brandon Bass por Glenn Davis pode ter sido benéfica pelo menos a curto prazo, Bass ainda é um diamante em bruto, Jameer Nelson e J.J. Reddick até ver têm-se portado lindamente e Ryan Anderson finalmente afirma-se como um pontuador nato. Se a estes juntarmos um Jason Richardson em bom plano, é legitimo esperar muitas vitórias destes rapazes.
Mas Howard quer mais, e com os dream teams que actualmente dominam a liga, não chega para acalentar esperanças de algo mais. E como se isto não bastasse, os rumores de uma ida de Howard para os Lakers em troca por Bynum persistem. É obvio que os Lakers são uma equipa mítica e que luta sempre pelo anel, sendo este argumento mais que suficiente para também Howard se querer mudar. Bynum é também ele um excelente poste que esta época tem mostrado merecer a oportunidade, no entanto é preciso ter em conta que os seus problemas de peso podem sempre resultar em lesões graves, não dando as garantias de Howard.
Se o Arsenal apresenta mais problemas que Orlando, é também verdade que o peso de Van Persie, embora monstruoso, é inferior a Howard, o que não deixa de ser uma comparação injusto, fruto da disparidade entre os desportos. Se Howard sair, Orlando vai perder mais jogos do que ganha, não vai a play off. O Arsenal, perdendo Van Persie, terá que ter a humildade (tardia) para reorganizar a sua estrutura e prioridades.